The Shining in 180º
Delbert Grandy, o mordomo, se esbarra em Jack Torrance durante uma festa no Hotel Overlook nas Montanhas Rochosas do Colorado. Grandy leva Torrance ao gentleman’s room para limpá-lo. Lá se apresentam e conversam. Kubrick dirige então uma das cenas mais importantes de The Shining.

De enquadramento nesta cena de 6 min, 7 cortes e praticamente um único movimento de câmera, podemos observar plano conjunto, plano médio, plano americano e primeiro plano.
A cena começa com um plano conjunto. Os personagens ocupam a maior parte da verticalidade do quadro. Grandy está à direita da câmera e Torrance à esquerda. Não é um plano geral, pois não há um grande plano antes que pudesse servir de referência e os personagens não estão “afogadas no cenário”.
O gentleman’s room é praticamente vermelho. Pode ser óbvio usar cores em filmes para tornar as imagens dinâmicas e belas, mas existe uma outra razão para seu uso: as cores quando bem usadas também contam histórias e intensificam o roteiro.
Os vários significados do vermelho incluem: morte, sangue, perigo, raiva, energia, guerra, força, poder, determinação, mas também paixão, desejo, amor e sexo.
O ângulo da cena é plano ou normal. A câmera focaliza os personagens na altura dos olhos, num plano horizontal.
A conversa entre os personagens continua. Os diálogos em The Shining sempre parecem ocorrer em algum tipo de abismo. Os ecos maciços do hotel vazio criam distâncias entre os personagens, mesmo que estejam um ao lado do outro. Esses ecos vazios criam um enorme espaço emocional.
Torrance começa achar que Grandy lhe é familiar. Essa dúvida é ponto de corte para o 2º plano da cena. A música é “Midnight, the Stars and You”, que acompanha a cena de forma milimétrica. É como se a partitura fizesse parte do roteiro técnico.

Crossing the line of action: plano conjunto para plano americano.

Plano conjunto Plano americano
Kubrick ‘pula o eixo’. Agora vemos Delbry à esquerda e Torrence à direita. Kubrick interrompe a narrativa clássica, a regra dos 180º, cruza a linha de ação e posiciona a câmera diametralmente oposta.
A regra dos 180º existe para manter uma coerência para que o espectador não fique confuso. O fato da personagem à direita ter seu olhar voltado para a esquerda e o personagem à esquerda com o olhar à direita gera uma continuidade visual no plano permitindo a narrativa clássica.
Mas, então o que pretende Kubrick ao cruzar o eixo da ação quebrando a narrativa clássica que permite ao espectador observar a cena de forma confortável? Por que a continuidade do corte não causa desorientação no espectador?
Agora os personagens são vistos do joelho para cima. É um plano americano. Kubrick quer intensificar os gestos e movimentos dos personagens. A câmera vai se aproximando e a tensão só aumenta.
Ainda 2o plano, existe um movimento efetuado com a câmera horizontalmente em velocidade lenta característico de um panning.
Panning

É o único movimento de câmera que consigo identificar em toda a cena e acontece quando Delbry sai do enquadramento para ir até a pia para buscar mais água, enquanto Torrance se inclina para se observar no espelho, preenchendo e dominando todo o enquadramento, sempre com a palma das mão em posição anatômica e com os dedos que parecem segurar sempre alguma coisa. Esse movimento só aumenta a tensão entre os personagens.
Novo cruzamento da linha de ação

O corte se dá exatamente quando Torrence joga a toalha na pia e logo em seguida permanece com os braços estendidos, levemente arqueados, lembrando uma posição de luta. O corte cruzando a linha de ação mostra Torrence de costas para o espectador e de frente para Delbry. O enquadramento passa uma sensação de duelo iminente e ainda mais reforçada com a cor vermelha do ambiente.


Até o 4º corte a linha de ação é sempre interrompida sem perder a narrativa. O 5º corte aumenta o enquadramento para um primeiro plano que inicia uma sequência de plano-contraplano entre os personagens finalizando em Grandy.
Kubrick usa praticamente de todos os elementos estéticos para criar no espectador o efeito desejado. Cada detalhe dessa construção está em sintonia com o conjunto e são cuidadosamente estudados para que o resultado final convença nosso pensamento deste universo.
Em A mise en scène no cinema, do clássico ao cinema de fluxo de Luiz Carlos Oliveira, o autor comenta que o crítico francês Michel Mourlet escreve “Tudo está na mise en scène”.
Mourlet quer dizer que a magia do cinema está na forma como o filme é feito, de como os elementos estéticos são combinados para criar um meio de fascinação perante essa arte da escrita luminosa do movimento.
Eric Brandão, Fortaleza, 26/10/2022Envios de arquivo
24 outubro 2022, 00:18 Comentários sobre o envio
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Nota10,00 / 10,00Avaliado emquarta, 26 Out 2022, 21:41Avaliado porLeandro AfonsoComentários de feedback
Oi, Eric.
Respondo aqui. O seu teste ficou abaixo, mas consegui ler acima o que de fato respondeu.
Curioso pensar no eixo aí. Em meio a …